A arte de Gunjan Gupta

20 de Novembro de 2018

“Arte para mim é um modo de vida, uma maneira de ver as coisas,” confessa Gunja Gupta. “É sobre encontrar o extra no comum. É realmente maravilhoso quando podemos ver a vida através de uma lente diferente e isso é o que a arte significa para mim”, confessa a designer conceitual. Partindo do princípio que toda cultura tem sua abordagem única para conceituar a arte de viver, Gupta acredita que, na Índia, esse anseio é profundo e espiritual, como uma verdadeira busca holística. Correspondance Magazine© conversou com a designer indiana Gunja Gupta, que criou obras impressionantes, como o “Muda Walla”, montagem de bancos de bambu e peças de bicicleta reciclada em torno de uma estrutura de aço, apresentadas no Museu das Artes Decorativas, MAD, em Paris, que montou um panorama seletivo colocando em evidência criações modernas e contemporâneas dos anos de 1940 até aos dias atuais.

“Cresci em Mumbai, o poço cultural da Índia, onde a necessidade é a mãe da invenção e, a chave para a sobrevivência, é a capacidade de encontrar recursos. Acredito que essa abordagem de resolução de problemas para a vida foi uma grande influência em meus anos de crescimento e, consequentemente, me levou a seguir uma carreira no design,” relembra Gunja Gupta. Lidando com a realidade de seu país, onde o conceito de design é recente e com o fato dela ser uma das primeiras particiantes do design indiano contemporâneo, Gupta conta ter tirado partido do seu espírito empreendedor para poder investir seu talento em âmbito internacional. A curadoria de design de produtos foi uma progressão natural nas suas pesquisas, interações com artesãos e fabricantes talentosos do seu país, como ela mesma diz: “uma busca comum pela beleza que une a humanidade.” 

Houve um momento crucial que fez com que você decidisse seguir sua carreira como artista e designer?

– Enquanto crescia, minha mãe absorveu o modo tradicional de vida indiano que se expressava maravilhosamente em nossa casa por meio de festivais, rituais e comida. Quando criança, achei essas diferenças culturais muito fascinantes e comecei a viajar sozinha com a idade de 10 anos. Graças às viagens, desenvolvi uma estética única desde muito cedo e o design veio como uma escolha natural de carreira. Outro momento decisivo foi quando me casei e mudei para Delhi, que é a capital cultural da Índia, e descobri oficinas tradicionais de artesanato, ruas antigas e monumentos que me inspiraram a pensar profundamente sobre a transição da tradição para a modernidade que a Índia precisava fazer. Como produtor histórico de artesanato de luxo, reconhecido globalmente, fiquei muito triste ao descobrir a completa falta de design de produtos artesanais contemporâneos internacionalmente relevantes na Índia, o que me levou a estruturar minha proposta de pesquisa para o meu mestrado em Design na Central St Martins, em Londres.

Como se dá o seu processo criativo e artístico?

– Sou uma designer conceitual e, portanto, as histórias são essenciais para o meu processo criativo. No coração do meu trabalho reside este interesse na vasta herança cultural da Índia e sua relevância contemporânea para nossas vidas. Misturo formas indianas com significado ocidental e/ou absorvo o folclore indiano com formas ocidentais. O topo do meu processo criativo é como esses objetos são feitos e por quem. É principalmente um processo colaborativo com artesãos habilidosos e experientes, mas o ponto alto criativo que mais anseio são quando os erros acontecem e as histórias são compartilhadas. Para resumir, os 3 C’s do meu processo criativo são conceito, criação e contexto.

Qual é a sua rotina diária de trabalho?

– O ritmo de vida é agitado porque, além do meu papel como artista e diretora criativa, também sou esposa e mãe de duas meninas. Mas é a minha vida criativa que alimenta a minha existência e faz com que todo o caos valha cada momento dela. Acordo às 6h da manhã para passar um tempo com minhas garotas antes delas irem para a escola, em seguida faço yoga ou pilates às 7h da manhã e medito diariamente por 20 minutos no aplicativo “Headspace” para depois tomar café da manhã com meu marido, por volta das 9h30, quando ele está na cidade. Por volta das 10h da manhã estou no estúdio e trabalho com minha equipe até as 16h30 quando minhas filhas estão de volta da escola. O dia é agendado com reuniões, discussões internas e atividades relacionadas a design de interiores e desenvolvimento de produtos. Duas vezes por semana, visito as oficinas onde os objetos são produzidos e também agendo uma visita à minha galeria para supervisionar a curadoria. Volto ao trabalho entre 21h e 23h, checando e-mails e amarrando outras pontas soltas, seguidas de alguma leitura na hora de dormir até a meia-noite. Viajo com frequência e, embora os fluidos criativos emanem constantemente, diria que a maioria das decisões críticas de design são tomadas em longas viagens de avião ou em viagens de negócios, quando a mente está desligada de todo os outros aspectos da vida.

Através de qual das suas obras você gostaria de ser lembrada?

– Se tivesse que escolher uma peça, seria o “Trono Muda”. É uma mistura ousada de tradição e contemporaneidade, de coração leve e uma obra caprichosa com um ponto de vista forte. Ao mesmo tempo, interdisciplinar e nômade, mas muito enraizada, é a melhor descrição dessa cadeira que coincide também com minha personalidade. Meu marido e minhas filhas certamente acrescentariam “dramática” a essa lista de adjetivos.

Se você pudesse trabalhar dentro de um movimento artístico do passado, qual seria?

– Diria que o movimento na história da arte que mais me influenciou foi o movimento Arts & Crafts que começou na Inglaterra no final do século 19 como uma reação à industrialização e se espalhou até o Japão, onde influenciou o movimento “Mingei”. O outro movimento de arte com o qual me identifico é o movimento “Arte Povera” na Itália, nos anos 60, que se apropriou de materiais destruídos e mundanos como inspiração.

Como você definiria o seu design em 140 caracteres ou menos?

– Uma mistura lúdica de formas e rituais indianos transformados em objetos contemporâneos feitos à mão, com apelo universal que são funcionais e esculturais ao mesmo tempo.

Você tem um artista favorito que te inspira?

– Amo a arte conceitual de Marcel Duchamp, ele transformou as coisas e nos fez mudar nossa perspectiva sobre os objetos e a arte.

Qual artista ou personalidade do passado você gostaria de ter conhecido?

– Acho que seria Ettore Sottsaas. Ele tinha uma grande mente, muito versátil, e aprecio suas interpretações da filosofia indiana.

Você interage com o mundo digital e a tecnologia em seu trabalho?

– Hoje, felizmente, por causa do mundo digital e da tecnologia, é muito mais fácil de se posicionar juntamente com seu trabalho no mundo. Essa possibilidade permite de obter gratificação como designer, por outro lado, faz com que o mundo do design de uma maneira geral se aproxime, sem fronteiras. A tecnologia permite que a indústria do design esteja unida como uma, independentemente de onde ela venha, cada uma adicionando seu toque pessoal e cultural ao processo. Por outro lado, a tradução de ideias para produtos reais foi facilitada devido à tecnologia, tornando o processo mais gratificante e mais curto.

Você já teve um momento em que questionou sua carreira?

– Penso que o maior desafio enfrentado por qualquer designer no século 21 é a autenticidade. É uma palavra importante que aborda todos os aspectos de qualquer empresa criativa hoje.

Que conselho você daria a um jovem artista que almeje seguir os seus passos?

– Não tenha medo, você não precisa se encaixar. Seja grato pela inspiração e seja honesto em sua expressão. E o mais importante: tenha paciência!

de onde vem sua inspiração criativa?

– Num sentido amplo, da vida cotidiana, e dos objetos que as cercam em qualquer lugar do mundo, realmente me inspiram. Adoro viajar, conhecer pessoas, visitar suas casas, me deliciar com diferentes cozinhas e aprender suas histórias através de álbuns de família, coleções, livros e museus. Na Índia, o conceito de “Rasa”, que significa “gosto” em sânscrito e na tradição espiritual, refere-se à essência da experiência humana; as emoções que governam a vida humana que se traduz em sabor estético no contexto das artes visuais.

Qual é a sua maior indulgência na vida?

– Minha maior indulgência e privilégio é enriquecer minha alma através de viagens e experiências. Também sou uma colecionadora de objetos artificiais e raros que se tornam as versões tangíveis dessas experiências.

TRADUÇÃO & EDIÇÃO DE TEXTO – Marilane Borges

IMAGEM © Cortesia da artista Gunja Gupta

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