Chagall na Itália

25 de Junho de 2016

O majestoso cenário do Forte de Bard, localizado no Vale de Aosta, no norte da Itália, abriga até 13 de novembro a exposição “Marc Chagall – A Vida”, uma pintura exclusiva da Fundação Maeght. Nessa imponente fortaleza do início do século XIX, transformado num centro cultural de arte, estão expostas as telas de Chagall que fazem alusão aos locais de sua vida, como sua cidade natal Vitebsk, sua casa e os objetos da realidade cotidiana que o pincel do artista eternizou em suas pinturas; assim como Paris e Saint-Paul-de-Vence, que o acolheu no cenário artístico e foram uma extraordinária fonte de inspiração para sua arte. Sem falar no amor de Chagall pelas mulheres da sua vida, Bella e Vavá, e a dimensão do sagrado, que resultou na realização de uma das suas obras mais importantes: as ilustrações para a Bíblia. Sete salas do Forte de Bard foram decoradas com cerca de 250 obras distribuídas entre pinturas, gravuras, desenhos, mosaicos, cerâmicas, compondo a vasta produção do artista nos vários campos da arte.

Considerado um dos maiores artistas do século XX, Marc Chagall nasceu em Vitebsk, na Bielorrússia, em 1887, e morreu em Saint-Paul-de-Vence, em 1985. Ele atravessou o século e nos deixou uma imensa obra que se encontra com o Oriente e o Ocidente, o sagrado e o profano, a realidade e a fantasia, a história e os sonhos, temas essenciais do seu ponto de vista. Essa exposição de Chagall na Itália é impressionante e surpreendente pela dimensão da sua obra “A Vida” mas pelo conjunto da sua vasta criação artística, que é por si mesmo singular em seu gênero, confessa Gabriele Accornero, diretor-geral do Forte de Bard que concedeu com exclusividade essa entrevista para o Correspondance Magazine®. “Sinto uma enorme emoção e orgulho em oferecer essa oportunidade única para os visitantes do Forte de Bard… cofessa Accornero, um dos comissários da exposição”

Conte-nos a história desse projeto excepcional e sua trajetória até a montagem dessa exposição sobre o mestre Chagall no Forte de Bard.

– O projeto de exposição “Marc Chagall – A Vida” nasceu do desejo de apresentar, pela primeira vez, a grande obra de Marc Chagall, que pertence à ordem do desafio para esta apresentação na Itália. A obra “Vida”, tesouro nacional da França e propriedade da Fundação Marguerite e Aimé Maeght, em Saint-Paul-de-Vence, é uma obra-prima de cerca de 4 x 3 metros, onde as referências a acontecimentos reais se misturam a suas memórias, aos episódios de sua vida e sonhos que sempre povoaram a imaginação do artista. Devido à sua monumentalidade e a multiplicidade de temas representados, esta pintura extraordinária presta-se a uma análise profunda, que é o ponto de partida da exposição. Em torno dela, quase 250 obras foram reunidas para a ocasião entre pinturas a óleo, aquarelas sobre papel, guaches, litografias, cerâmicas e mosaicos testemunham a trajetória artística original de Chagall.

Como essa aventura da exposição Chagall no Forte de Bard começou?

– A ideia era trazer as obras de Marc Chagall, sua riqueza enigmática nasceu com Isabelle Maeght e Markus Müller, diretor do “Kunstmuseum Pablo Picasso Münster”. Ao longo de várias colaborações anteriores, que resultaram em projetos de exposições significativas no Forte de Bard, incluindo uma exposição sobre a arte de Joan Miro, Alberto Giacometti e Pablo Picasso, trabalhamos por quatro anos para preparar esta exposição. Gostaria de mais uma vez citar Sylvie Gabrielle Forestier, Diretora do Museu Nacional da Mensagem Bíblica Marc Chagall, em Nice, com o qual o projeto de exposição desabrochou, cujo trabalho, empenho e entusiasmo nos inspira constantemente.

Por que expor Chagall neste momento e não outro artista?

– A arte de Marc Chagall é complexa pelo uso de alegorias e justaposições, ela afeta o espectador, que se encontra absorvido pelas suas obras. Favorizar essa relação foi o nosso objetivo neste local propício para a inspiração. A exposição tenta aproximar o público da eterna vocação poética de Chagall: os personagens amantes, acrobatas e malabaristas que voam sobre os telhados, animais que tentam pintar ou tocar violino… É este mundo pictórico que nos eleva acima da realidade, para trazer-nos para um mundo onde as regras são compostas de memórias, sonhos e imaginação. Além disso, a arte de Chagall é construída, tela sobre tela, como uma linguagem real permeada de metáforas que nutre um discurso complexo sobre sua existência e sua própria maneira de pensar os eventos que ele testemunhou.

Quais foram as fontes de inspiração para escolher as obras que seriam expostas no Forte de Bard?

– A principal inspiração foi a pintura “A Vida”: suas dimensões extraordinárias e as imagens que evocam o poder da sugestão dessa obra. “A Vida” desperta de forma aparentemente natural, a maioria dos temas que caracterizam a produção artística de Chagall, a correlação entre esta tela e sua cultura figurativa ajudou a criar uma relação dialética com outras obras de naturezas diferentes. Foi dessa forma que a articulação da exposição foi desenhada. Queríamos criar um percurso cujo tema levasse naturalmente à obra central da exposição, permitindo ao público em geral descobrir os temas da produção de Chagall e sua abordagem sensorial ligada ao prazer das formas, das cores e da poesia.

Qual foi o critério para a seleção dessas obras?

– A ideia-mestra foi principalmente representar de maneira irrestrita a complexa trajetória do artista e do homem Marc Chagall. Além disso, o objetivo era ilustrar sua produção nos vários campos da arte: pintura, gravura, desenho, mosaico, cerâmica…Assim, graças aos empréstimos de instituições e coleções particulares do mundo inteiro, a exposição é composta por um número considerável de obras, cerca de 250 no total, que estão espalhadas nas sete salas de exposições. O público é convidado a descobrir os temas recorrentes da obra de Chagall, a representação de sua própria identidade como um artista numa série de autorretratos coloca em relevo os espetáculos do mundo do circo – incluindo o acrobata – com o qual Chagall gostava de se identificar.

Quais são as obras mais importantes que estão expostas no Forte de Bard?

– Juntamente com a apresentação excepcional da obra-prima “Vida”, a exposição apresenta obras pendentes de Chagall. Em primeiro lugar, os esboços preparatórios valiosos para “A vida”, que permitem dar uma olhada na gestação fascinante dos processos de trabalho e a inspiração do artista. “Diante da mesa”, um óleo sobre tela que data de 1968-1971, empréstimo da Fundação Maeght, é um trabalho singular que representa o artista como um jumento, tentando pintar uma crucificação: uma tela na tela nos leva ao domínio espiritual da obra de Chagall, onde Jesus Cristo é o símbolo da dor e do amor universal. As obras que representam a cidade de Vitebsk também são excepcionais: “Estudo de composição para a Rússia, para os burros e para os outros”, de 1911-1912, e “Cidade Azul”, em 1968 (Museu de Belas Artes de Budapeste); “Meu País” de 1943 (Galleria Civica d’Arte Moderna e Contemporanea de Turin), e as muitas obras dedicadas a Paris, sua segunda Vitebsk, incluindo a série de litografias de cor em exposição em 1954 pela Galerie Maeght, onde os personagens e animais mesclam forma lírica a imagens de monumentos. A representação de flores, uma das formas de autorretrato do artista, também encontraram lugar na exposição com pinturas a óleo, guaches e litografias. Uma sala da exposição é inteiramente dedicada à exibição de “A Bíblia” de Marc Chagall (Richard Fuxa Foundation, Praga), uma das principais obras do século XX que foi dedicada aos textos sagrados. As 105 gravuras feitas entre 1931 e 1956 mostram uma forte inspiração espiritual que nos leva às origens da criação. Para finalizar, gostaria de citar “Em direção a uma outra luz”, última litografia de Chagall, realizada em 1987, poucas semanas antes de sua morte. É um trabalho em movimento, que mostra o autorretrato do artista, que com asas parece se entregar à esfera celeste.

Fale-nos sobre os desafios encontrados para montar um projeto desta dimensão.

– Um dos desafios que enfrentamos quando se trabalha no projeto ambicioso de uma exposição é reunir os diferentes empréstimos. A riqueza destes reflete nossos esforços nesse sentido resultando na riqueza da exposição e consequentemente na experiência da visita. O outro desafio foi exibir “A Vida”, uma pintura, exclusiva da Fundação Maeght. Enfim, e não menos complexo, foi propor uma leitura da obra e da carreira de Marc Chagall, que seja inovadora e, ao mesmo tempo, rica e complexa. Diante de um panorama com muitas homenagens à figura do mestre da arte do século XX, vamos oferecer aos visitantes do Forte de Bard uma pista totalmente nova, que pode ser uma experiência única para o visitante.

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