Patchwork artístico

1 de Novembro de 2018

Marei Rei, do nome de batismo Amelie Marei Loellmann, nasceu em 1984 na Alemanha numa família de artistas, onde os pais sempre impulsionaram os filhos a sonhar, criar, construir e explorar os próprios horizontes e espaços criativos. Tanto que seu pai fazia cerâmica japonesa e sua mãe trabalhava com tecelagem. Em exibição pela primeira vez em Paris, no novo espaço “Le 16”, Marei Rei expõe uma série de tapeçarias criadas exclusivamente para a Galerie Gosserez, que imaginou uma nova experiência sensorial para este objeto cotidiano. Batizada de “Dis/-jointures”, a exposição que fica em cartaz até 12 de Janeiro de 2019, convida o visitante a se envolver nessa linguagem poética da artista, que combina técnicas de tecelagem artesanal associadas à módulos de superfície de concreto, a fim de extrair múltiplas propriedades artísticas e visuais. Correspondance Magazine® conversou com a artista Marei Rei para entender como ela se apropria de texturas variadas como linho, concreto, feltro, algodão ou couro para dar sentido a suas obras, que exercem um sentimento de estranheza nessa combinação inusitada de um suporte rígido como o concreto que, associado à materiais flexíveis, instiga o visitante a querer tocá-lo, acariciá-lo.

Depois do ensino médio Rei viajou e viveu em lugares diferentes, como Brasil, Roterdã e Nova York, para se instalar de novo em Berlim, onde vive e trabalha.  Adepta de conceitos pouco convencionais, a artista afirma nunca seguir uma linha reta, “meu caminho é composto de uma curiosa prática interdisciplinar e colaborativa, que envolve diferentes campos de artes aplicadas como performance e belas artes”, confessa. Rei estudou dança contemporânea, design de moda e fez um mestrado em design de cenário na Weissensee School of Arts, em Berlim, tendo como essência do seu trabalho a pesquisa permanente. Essa exploração entre a conexão com o design contemporâneo, as artes plásticas e o teatro, fez com que o mundo da arte rapidamente reconhecesse seu talento, um reconhecimento que veio em forma da bolsa a “Elsa Neumann”, que culminou com sua indicação ao German Design Award e ao Marianne Brandt Award, onde finalmente ganhou o prêmio da Criação de Berlim em 2014 pelo Trades Award.

O que influenciou você na composição das suas obras?

– A profunda simplicidade da minha infância, minha vida em família, o contato com a natureza, associado às influências de viver nas grandes cidades, o convívio com pessoas e culturas longínquas resultam em mundos diferentes. Considero que estou no meio e faço parte, de alguma maneira, de ambos. A essência do meu trabalho é conectar essas duas influências.

Houve um momento crucial quando você decidiu seguir a carreira artística?

– Sem dúvida, minha curiosidade e o interesse em criar um diálogo que fizesse a conexão entre várias vertentes artísticas. Tudo isso foi e é possível graças a minha criação que me possibilitou crescer num ambiente onde para a criatividade não existe fronteiras, certamente por isso sinto-me livre para interagir com mundos diferentes que se entrecruzam.

Você pode nos contar um pouco sobre como se dá esse processo de interação criativa ? 

– Estou aprendendo diferentes técnicas, onde a diversidade de materiais e a experimentação, se misturam a elementos variados. Nesse aspecto, tenho me concentrado em persistir nesse processo de descoberta de novas possibilidades, onde elementos distintos como o concreto, o tecido, a pintura, possam interagir entre si. Permanecer nesse processo é muito importante para mim, porque essa observação atenciosa me oferece inúmeras possibilidades de conhecer o material com o qual pretendo trabalhar e me mostra novos atributos para compor minha obras que são, por natureza, flexíveis.

Você pode nos dar um exemplo dessa prática multidisciplinar e de que maneira elas interagem em suas obras? 

– Em uma das técnicas que desenvolvi, descobri como criar uma obra flexível e leve utilizando tecido e concreto. Começo meu trabalho no chão do meu estúdio derramando concreto, com o qual deve-se trabalhar rápido. Depois, lixo a superfície do concreto em várias camadas até que a superfície se torne muito macia quase como uma pedra lavada em um rio. O processo de tecelagem vem em seguida é a segunda parte do trabalho, que leva muito tempo. Começo a tecer no concreto peças de tecidos em linho, feltro, algodão ou couro me valendo das partes ocas para finalizar o trabalho costurando esses diferentes tecidos, macios e duros, que vão formar minha tapeçaria. Para mim, esse processo demanda dedicação e se valer de um tecido para essa composição é uma forma de criação. Do entrelaçamento desses diferentes processos, técnicas, conhecimentos e do tempo necessário para a interatividade de cada um desses elementos, considero um ato de reunião.

Para construir esse processo artístico você estabeleceu uma rotina? 

– Na verdade, não tenho uma rotina diária mas gosto de trabalhar de manhã cedo.

Para a composição de suas obras, você interage com o mundo digital ou com a tecnologia em particular?

– Trabalho com conhecimento de tecnologia e pesquisa de novos materiais e ao mesmo tempo com conhecimento de diferentes ofícios antigos. Meu trabalho é um entrelaçamento de conhecimentos diferentes. Não gasto muito tempo me comunicando nas redes sociais sobre o que produzo, porque acredito no poder da presença física e, especialmente, no trabalho que desenvolvo com minhas mãos. Acho que para poder realmente ler meus trabalhos, eles devem ser tocados, mesmo que seja apenas para senti-los.

Como você gostaria que sua obra fosse percebida pelo público? 

– Espero que minhas obras sejam um convite para experimentar e expandir o conhecimento do mundo. 

Qual artista do passado você mais gostaria de conhecer? 

– O artista brasileiro Hélio Oiticica.

Você tem um artista favorito que te inspira? 

– Sou muito inspirada pelas obras da arquiteta brasileira Lina Bo Bardi. Recentemente vi a nova peça da coreógrafa Meg Stuart e realmente adorei e ainda estou impressionada com o livro “O homem com os olhos compostos”, do autor taiwanês Wu Ming-Yi.

Como você definiria a beleza em 140 caracteres ou menos? 

– Para mim, beleza é pura simplicidade, é vibrante e não artificial; é um equilíbrio entre vazio e multiplicidade; é descontrolada, livre, flexível e silenciosa.

Você já teve um momento em que questionou completamente sua carreira como artista? 

– Sim, claro, porque é muito difícil viver da sua arte. Mas, ao mesmo tempo, não vejo outra opção na minha vida, senão investir em minha arte.

Que conselho você daria a um jovem artista qu queira seguir os seus passos? 

– Não siga os meus passos ou os passos de outra pessoa, esteja sempre interessado em uma nova maneira de pensar e agir, tente aprender e reescrever opiniões e percepções generalizadas. Abra as portas da percepção para novas perspectivas em várias camadas, aprendendo, colaborando e envolvendo diferentes pensamentos e disciplinas.

Se você pudesse trabalhar dentro de um movimento artístico passado, qual seria? 

– Gosto de viver no momento presente.

TEXTO & EDIÇÃO – Marilane Borges    –     IMAGEM © Marei Rei © Galerie Gosserez

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