Picasso Primitivo

2 de Maio de 2017

Até 23 de Julho, o Museu do Quai Branly-Jacques Chirac, em Paris, apresenta a exposição “Picasso Primitivo”, que explora com esmero uma grande lição da história da arte e desmitifica o mito desse astro multifacetado e incansavelmente criativo. Várias centenas de obras, entre as quais, mais de uma centena de desenhos, pinturas, esculturas, objetos, totens, máscaras, provenientes do Museu Picasso em Paris e das coleções do Museu Quai Branly estão expostas, mostrando ao visitante a forte ligação do pintor espanhol com as artes primitivas, africanas e oceânicas.

“As influências que Picasso recebeu ao chegar em Paris, descobrindo primitivo, ele irá explorar novamente de acordo com seu interesse”, diz Olivier Picasso, neto do pintor, e acrescenta: “depois de se dedicar ao período azul e rosa, o primitivismo chega como precursor do cubismo.” Tudo começou em 1906, quando Picasso descobriu uma máscara estilizada do “Fang” (população negro-africana que vive na África Central) do Gabão. Naquele mesmo ano, o pintor visitou “por acaso” o Museu Trocadéro, em Paris, e ficou fascinado pelas esculturas africanas que descobriu. Foi a partir de então que Picasso passou a entender “o sentido real da pintura como uma forma de magia que se interpõe entre nós e o mundo hostil nos conduzindo em direção do poder… ” Ainda em 1906, Picasso comprou sua primeira obra primitiva não-ocidental, um “Tiki” das Ilhas Marquesas, um dos cinco arquipélagos da Polinésia Francesa. A partir desse ponto nasceu a tela “Les Demoiselles d’Avignon”, que o próprio artista descreve como sua primeira pintura exorcista, diretamente inspirada pelo seu novo amor da arte extra ocidental.

Depois de um passeio cronológico que vai de 1906-1974, um ano após a morte do artista, pontuado por anedotas, a mostra coloca em evidência as criações de Picasso estabelecendo um diálogo fecundo com as obras de artistas não-ocidentais. Aqui, a assinatura do artista não é o foco principal, o que importa é destacar como estas obras, extra ocidentais ou não, se encontram na criação de formas universais, susceptíveis de serem compreendidas por todos. Durante todo o percurso, o termo “primitivo” é entendido como um ato inicial, criativo e primordial, onde o poder das formas apresentadas exclui a necessidade de qualquer discurso. Este é o princípio dessa exibição, onde Picasso foi tratado como grande artista e não como um deus vivo e onde todos os outros coexistem com dignidade.

TEXTO – Chantal Manoncourt

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