Daniel Templon

27 de fevereiro de 2020

Como resultado de seu apurado senso instintivo, do seu talento para reconhecer potenciais artísticos, sua determinação em promover artistas em detrimento do hype e da crença no processo de comercialização das artes, Daniel Templon transformou sua opinião em vereditos e é constantemente procurado para opinar sobre a viabilidade de projeto que envolvam jovens artistas. Ele não thesita em expressar no que acredita, de se fazer ouvir num meio em que, com muita freqüência é afetado por dinheiro, ego e celebridades. Seu interesse se nutre da crença no potencial de jovens artistas de talento e no poder redentor da arte.

Conhecido e respeitado no cenário das artes, Daniel Templon abriu sua primeira galeria em Paris em 1966 quando ele tinha apenas 21 anos. Ela se situava na rue Bonaparte e em 1972 mudou-se para a rue Beaubourg, cinco anos antes da abertura do Centre Pompidou. Hoje, a Galerie Templon, especializada em arte contemporânea, é uma das mais famosas da França, e Daniel Templon possui mais dois espaços em Paris e em Bruxelas. Para conhecer em detalhes a história e os projetos de Daniel Templon, Correspondance Magazine® entrevistou com  exclusividade esse ilustre mecenas das artes que nos segredou seus primeiros passos e evocou sua biografia “Daniel Templon, uma história da arte contemporânea”, publicada pela editora Flammarion.

Como surgiu a ideia de publicar “Daniel Templon, uma história da arte contemporânea”? Conte-nos um pouco sobre esse projeto autobiográfico.

– Tive a chance de conhecer e exibir muitos artistas que já entraram na história da arte, como Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Frank Stella, Ellsworth Kelly, Richard Serra, Julian Schnabel, Jim Dine, Donald Judd, Roy Lichtenstein, Willem de Kooning, Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, para citar alguns, e na época dos quarenta anos da galeria em 2006, vários editores entraram em contato comigo para informar essa história excepcional. Por fim, a historiadora Julie Verlaine, especialista no mercado de arte do pós-guerra, começou a trabalhar e esse livro foi lançado para festejar o 50º aniversário da galeria, em 2016. Essa publicação compila a história da galeria e minha jornada pessoal como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre as transformações do mercado de arte francês desde os anos 70.

Que evento, especificamente, despertou sua paixão pela arte contemporânea?

–  Sempre digo que entrei nessa profissão um pouco por acaso, aos 21 anos, com pouco conhecimento, com gosto pela aventura. Meu primeiro choque visual foi a pintura de Georges Mathieu “Les Capétiens partout!” Que foi exibido no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris. Eu devia ter 20 anos e foi uma das minhas primeiras visitas a um museu.

Quais artistas lhe interessam e inspiram? Você poderia nos dizer por quê?

– Muitos artistas me inspiram, a lista seria muito longa se fosse citar todos. Estive ombro à ombro com muitos artistas que me fascinaram. É o privilégio e a felicidade desta profissão. Hoje represento cerca de quarenta artistas que defendo em todo o mundo. Entre os franceses, sou muito inspirado por Gérard Garouste, que além de seu notável trabalho como pintor, também é um intelectual fascinante que cria laços entre a história da arte, a Bíblia, o Talmude, a psicanálise e a literatura. Ele também é um homem profundamente comprometido, principalmente com as crianças através de sua instituição de caridade La Source, que ajuda crianças em dificuldade a florescer através da arte. Ele é um homem carismático e generoso. Sempre sinto muito prazer em interagir com ele.

O jovem pintor americano Kehinde Wiley, com quem trabalho há mais de 10 anos, também é um desses artistas,  política e artisticamente engajados. Ele viajou pelo mundo para conhecer jovens “não brancos”, fazer grandes retratos barrocos deles e colocá-los no discurso oficial da história da arte ocidental. Eu vi isso crescer tremendamente nos últimos anos. Ele até pintou o retrato oficial do presidente Barack Obama e hoje acaba de inaugurar uma residência artística, Blackrock, em Dakar, Senegal. Ele é brilhante e sua energia é comunicativa.

Como você descreveria a Galerie Templon e seus artistas?

– A Galerie Templon é uma história coletiva, formada por 53 anos de encontros, filiações entre artistas, pontes entre diferentes gerações e continentes. É o desejo de se registrar na história da arte, em busca de artistas que marcaram seu tempo e que estejam mais preocupados com o conceito de obra-prima do que com questões de linguagem ou moda.

Você foi um dos pioneiros de galerias no processo de exibição de artistas da América Latina. Como você abordou brasileiros como Tunga e Vik Muniz, por exemplo?

– Fui um dos primeiros a exibir artistas conceituais americanos em Paris, como Donald Judd, Carl Andre, Dan Flavin e Richard Serra. Posteriormente, também consegui mostrar em primeira mão os italianos Transavangarde (Cucchi, Clemente, Chia, Paladino). No início dos anos 90, quando crescia o peso econômico e político da América Latina nas relações internacionais, parecia-me essencial proceder da mesma maneira e ir ver o que estava acontecendo nesse continente.

Com muito método, fui conhecer os criadores da região, visitei muitos ateliês e organizei uma exposição coletiva em 1997. Havia, em particular, Saint Clair Cemin, Guillermo Kuitca e Vik Muniz, artistas com quem trabalhei anos depois. Foi nessa época que conheci o brasileiro Tunga, que começou a expor em eventos internacionais como o Documenta em Kassel ou a Bienal de Veneza. Trabalhar juntos era óbvio. Ele era fluente em francês e amava Paris. Eu o expus 5 vezes e trabalhamos juntos até sua morte em 2016.

Como você encontra artistas para expor ou ser representados pela Galerie Templon? O que o incentivaria, em particular, a mostrar seus trabalhos no site da Galeria Templon ou nas mídias sociais?

– É um trabalho constante de monitoramento e pesquisa. Continuamos visitando galerias, feiras de arte, ateliês e escolhemos apenas um ou dois novos artistas por ano. Representar um artista é uma missão completa que requer um forte compromisso humano, tanto intelectual quanto financeiro. Geralmente, são necessários longos meses de negociações, se não anos, de reuniões, visitas aos ateliês e discussões antes de optar por se envolver com um artista.

O que você acha do boom das feiras de arte que ocorreram nos últimos anos? Como eles estão mudando o mercado?

– A multiplicação de feiras é problemática. Elas são uma ótima vitrine para promover nossos artistas, mas são extremamente caras. O preço dos estandes é muito alto e o custo do transporte de obras explodiu nos últimos anos. Para todas as galerias, qualquer que seja o seu tamanho, a participação em feiras é um item de alto custo e nem sempre é rentável no curto prazo. Isso nos dá tremendos canais de distribuição, mas também nos torna muito dependentes desses organizadores de feiras, geralmente multinacionais, que tem um objetivo essencialmente comercial, muito longe da nossa ambição cultural e artística.

Qual a sua percepção sobre o mercado de arte atual? Como isso mudou nos últimos cinco anos?

– Nos últimos 5 anos, testemunhamos uma aceleração do ritmo: mais feiras, mais leilões, mais informações e exposições em todo o mundo. Quando comecei, o mundo da arte estavra principalmente centrado na Europa e nos Estados Unidos, hoje temos eventos no planeta inteiro. No mês passado, passei uma semana em Xangai para a feira West Bund e este mês terei que passar alguns dias na África Ocidental para acompanhar os projetos dos meus artistas e depois viajo por uma semana para Miami para visitar a Art Basel Miami Beach. Estamos sempre em movimento.

Como um visitante frequente de feiras de arte, quais são as suas favoritas?

– A Galerie Templon participa de uma dúzia de feiras de arte ao redor do mundo. Uma das minhas favoritas é a Art Basel, na Suíça, da qual participo continuamente desde 1978. A feira é magnífica e a cidade é em escala humana. Os museus da cidade tem coleções muito ricas e, no início do verão, em junho, há um ambiente descontraído que gosto particularmente. Mas, obviamente, é em casa na FIAC em Paris que me sinto melhor.

Não há dúvida de que estamos atualmente em um período de turbulência e agitação política, econômica e cultural. Na sua opinião, qual o papel do artista na sociedade contemporânea?

– Não tenho certeza se espero um papel predeterminado dos artistas. O único papel deles é a liberdade. O artista fala acima de tudo sobre ele, esperando que sua história, suas fantasias, suas palavras sejam um local de projeção para quem conhece ou vê o seu trabalho.

Você poderia citar alguns dos novos artistas cuja carreira, na sua opinião, merece ser seguida?

– Recentemente, trouxemos dois artistas africanos para a galeria, Omar Ba (nascido em 1977 no Senegal) e Billie Zangewa (nascida em 1973 no Malawi). Penso que hoje existe um dinamismo sem precedentes na África e os criadores africanos contemporâneos, por muito tempo marginalizados, agora poderão entrar plenamente nos circuitos internacionais. Entre nossos novos e jovens artistas, podemos citar também o artista francês Prune Nourry e o japonês Chiharu Shiota.

Você tem algum conselho para artistas emergentes que desejam apresentar seus trabalhos em uma galeria como a sua?

– Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Você também precisa viajar e, sobretudo, descobrir o que outros artistas fazem, tanto no presente, quanto no passado, enfim, se eduque. A prioridade deve ser criar uma obra, não “entrar em uma galeria”. Estou convencido de que grandes artistas, aqueles que tem uma verdadeira ambição artística e que carregam algo original e poderoso para dizer ao mundo sempre encontrarão uma galeria para exibi-los. A primeira palavra que dizemos quando olhamos para uma pintura é “eu gosto” ou “eu não gosto”, começamos com aqueles que gostamos e vice-versa.

O que o mundo da arte significa para você?

– O “mundo da arte” é multifacetado. Existem muitas cenas de arte, mesmo dentro da mesma cidade. Há também muitos “mercados de arte”, correspondentes a uma multiplicidade de preços e formas de criação, da arte de fora ao vídeo via arte de rua. Cabe a nós, proprietários de galerias, tentar entender tudo isso, destacando os artistas em que acreditamos.

ENTREVISTA & EDIÇÃO DE TEXTO – Marilane Borges

IMAGEM – Cortesia da Galerie Templon, Daniel Templon clicado por Eric Garault © Todos os direitos reservados

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