Essa tal felicidade

14 de Novembro de 2019

Para os brasileiros a pintura da artista Lulu é naturalmente tropical, tanto pelas tonalidades exuberantes empregadas com intensidade em suas telas quanto pelas figuras femininas protagonistas de suas obras. Esses dois assuntos em si mesmo nos são familiares, mas acredito que para os europeus em geral e, em particular, para os franceses, essa influência multicolorida, impregnanda de uma energia solar e calorosa pode parecer extrema, principalmente em Paris onde a cor oficial é o preto. E, portanto, esse é o diferencal dessa artista que nasceu francesa e, com sua arte, incorporou o espírito policromático do seu país de adoção, o Brasil. Vivendo em São Paulo desde 2006, Ludivine Duflos, artisticamente conhecida como Lulu, seguiu seus instintos e persegue com seus pincéis um arco-íris de cores onde ela destila todo o seu talento confeccionando retratos de mulheres cheias de charme. Uma parte dessa coleção será leiloada entre os dias 14 e 16 de novembro em Paris, na Maison Molière – 40, rue de Richelieu. Os visitantes que quiserem conhecer de perto os quadros da artista, a exposição batizada de “Felicidade” é aberta ao público em geral e o leiloeiro assim como seus colaboradores estão à disposição para comunicar todas as informações sobre o leilão das obras e suas estimações, que também podem ser feitas via internet.

Para falar sobre essa exposição “Felicidade”, onde suas obras serão leiloadas, a artista Lulu Duflos respondeu às questões de Correspondance Magazine® e nos revelou suas técnicas de pinturas, as influências culturais que seu trabalho recebe e nos confessou um dos seus sonhos de artista, o de tornar suas telas tão vivamente intensas que elas não nem necessitem ser retocadas. Talvez seja essa tal felicidade que a artista queira transmitir em suas telas, enchendo os olhos do mundo de cores e distribuindo naturalmente com sua arte a alegria na vida das pessoas…

O que a levou à pintar figuras femininas em detrimento das masculinas? Foi uma escolha deliberada ou é algo que você considerou desde o início da sua carreira?

– Aconteceu naturalmente, queria ser estilista, criar roupas para mulheres, comecei a pintar com a ideia de fazer desfiles e minha pintura evoluiu desde então, mas estou longe de ter percorrido esse universo feminino que está em movimento permanente. Talvez a imagem de um homem apareça um dia em minhas telas através de uma sombra ou uma mão… Reconheço que essa ideia passa pela minha cabeça de vez em quando. Todavia, a presença dele provavelmente será diferente das mulheres que me inspiram nas minhas telas.

Conte-nos um pouco sobre como seus retratos são feitos.

– Inicialmente, começo com uma ideia, uma atmosfera de cores, uma impressão, um objeto, às vezes um rosto que me tocou, uma encenação que aparece na minha cabeça, não sei ao certo explicar o por quê… cada retrato começa com um processo diferente. Primeiro pinto um plano de fundo, geralmente em tons verdes, e atribuo os principais elementos como pontos de referência. Normalmente começo a colocar as sombras nos rostos, depois ando com meu pincel para apresentar outras cores. A partir daí, sigo a minha intuição, componho e decomponho até chegar a uma estética e coerência cromática intensa. Uso o fundo nas formas, na pele… Muitas vezes mal posso esperar para ver aonde vou chegar. Brinco muito com o acaso e me deixo levar pelo instinto.

Você diz que parte do seu processo é instintivo ao criar um retrato ou selecionar uma cor, como você se decide em relação aos detalhes específicos?

– Pinto sempre instintivamente no começo, enviando formas e jatos de cores e me divirto com essas combinações. Também gosto de brincar com contrastes, por exemplo, o preto e o branco aparecem em um local onde não são esperados. Gosto de contrastes na mesma tela porque eles favorecem os detalhes e a incoerência não me assusta, pelo contrário, eu a procuro. Coloco cores fluorescentes e adoro surpreender e seduzir o olhar.

Quais suportes você usa para suas telas?

– Há alguns anos pinto apenas em linho. Gosto quando a fibra da tela é boa, também escolho meus pincéis e meus tubos de tinta com muita atenção. Faço meus fundos em acrílico, mas pinto exclusivamente com óleo. Também gosto de trabalhar no papel e sinto muita falta do lápis.

O que você mais aprecia na pintura?

– A jornada, a liberdade, a magia para conseguir representar algo vivo tanto para os olhos quanto para o espírito!

Quem são seus ícones na arte?

– Gustav Klimt, que para mim é um gênio, único em seu gênero. Adoro a magia da linha afiada de Egon Schiele e o movimento e as cores de Toulouse Lautrec. Também admiro as composições cromáticas de Matisse e a liberdade de Picasso.

Que influências ou ideias, fora das artes visuais, inspiram seu trabalho?

– A decoração me inspira muito pelas cores, pelas impressões gráficas e pelas formas de objetos. os animais, pelas cores e formato das bocas, pelas cenas da vida cotidiana e pela natureza sempre, especialmente, a tropical. A ideia de comunicar um sentimento, um estado de espírito, um sorriso, se deparar com algo surpreendente, às vezes também ter um pouco de nostalgia ou saudade ajuda no meu processo criativo… todos esses sentimentos juntos orientam meu trabalho.

Quais são as cores de tinta que obcecam você?

– Gosto de verdes, azuis, rosas, alguns vermelhos mas aprecio especialmente diferentes combinações de cores! Existem cores que não posso colocar na tela porque elas mudam quando estão próximas uma da outra. Existem algumas que me obcecam porque são sempre um desafio, mas eu as amo, como um rosa púrpura ou ainda um céu de um azul muito puro.

O que a incita a criar uma nova tela?

– Sigo um chamado que vem das entranhas, não sei como explicar, é uma força interna que me empurra, uma mistura de excitação e o desejo de colocar na tela todas as ideias que me vem a cabeça, é um mergulho no desconhecido.

Se você não fosse pintora, o que gostaria de ser?

– Muitas coisas! Uma criadora de felicidade, se possível, mas sem ser psicólogo ou treinador, porque não me reconheço nesse papel. Mas gostaria de ser alguém que coloca a mente das pessoas em boa forma.

Como você ‘sabe’ que uma pintura foi terminada?

– Na verdade não sei. Costumo me dividir entre duas forças: de um lado, sinto que minhas pinturas terminaram bem antes de assiná-las, gosto da intensidade do primeiro rascunho. Se fosse mais livre artisticamente falando, as assinaria naquele momento. Mas, por outro lado, quando revejo uma de minhas pinturas, sempre quero voltar, tenho a impressão de que elas nunca estão terminadas. É bastante paradoxal. Talvez meu maior desejo como artista seja que minhas pinturas fossem telas vivas…

EDIÇÃO DE TEXTO – Marilane Borges

IMAGEM – Cortesia da artista. Todos os direitos reservados © lulu 

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