Bogdan Pavlovic

23 de dezembro de 2016

De posse de um endereço fui, na tarde de um domingo de verão, procurar exatamente onde se encontrava, no 15º arrondissement de Paris, o atelier do artista, um refúgio secreto que somente convidados e avisados podem acessar. Situado numa rua pouco movimentada, o local que atende pelo nome de “La Rûche” é um viveiro de artistas que tem seus ateliês em meio a um oásis de verdura. Nesse ambiente calmo, cercado por um jardim selvagem, encontrei Bogdan Pavlovic (1969) em seu iluminado atelier qualhado de telas multicoloridas, que se empilhavam embaixo do mezanino. A impressão que tive era a de que em algum momento alguns desses personagens pintados com tanta expressão e essas paisagens intensificadas em pinceladas vivas, iam saltar da tela e circular pelo salão.

“Apaixonado pelas viagens mitológicas dos grandes exploradores, o artista sérbio Bodan Pavlovic evolui num universo onde as cores e os personagens dão o ritmo de sua arte…”

Esse sérbio que nasceu na Iugoslávia e cursou a Escola de Belas Artes em Paris, tem voz mansa, fala pausadamente e parecia tímido no início da nossa conversa mas, aos poucos, quando começou a falar de suas obras, sua expressão adquiriu outras nuances. Assim como os quadros que ele mostrava, explicando o por quê da mudança dos tons escuros, preto e cinza, para a utilização de cores mais intensas e vivas, como o vermelho e o amarelo, a temática artística evoluiu, graças ao seu novo suporte que deu um salto de qualidade das telas convencionais para as telas em feltro, intensificando consideravelmente a dimensão de sua obra. À medida que sua explanação avançava, Bogdan parecia se sentir mais à vontade em seu universo e, de tela em tela, ele respondeu calmamente às questões de Correspondance Magazine®.

O que levou você a desejar ser um artista?

– Como muitos garotos da minha geração, na minha juventude cresci com a cultura das histórias em quadrinhos e a caricatura influenciou particularmente o mundo que absorvia visualmente. Foi pela admiração que nutria pelo marinheiro Corto Maltese, personagem mítico de Hugo Pratt, que pensei em me tornar um dia ilustrador ou cartunista.

Como e quando você começou à trabalhar como artista?

– Comecei a pintar na fase adulta, quando tinha 24 anos, durante meus estudos na École des Beaux Arts, em Paris. Desde o início percebi que tinha uma grande fonte de inspiração no mundo visual adquirida durante a minha juventude. Minha percepção acontecia através de um mundo narrativo ocupado pelos mapas, que se referiam às aventuras dos grandes exploradores, suas viagens extraordinárias à terras longínquas. Na verdade, todo esse contexto de conquistas tocava outras questões de ordem política, econômica e ecológica.

Qual é o processo criativo que permeia sua obra?

– Minha arte foi evoluindo em função da minha experiência. Com o tempo comecei a livrar-me da narração como objeto artístico e passei a olhar para a realidade do mundo existente, foi assim que surgiu meu interesse pela fotografia e pelas questões que afetam a vida cotidiana. O que me levou à outras interrogações, como a pergunta que me faço hoje: o que é a realidade neste momento presente?

Como se dá o seu processo de trabalho para a composição de suas criações?

– Através da fotografia, que é o meio visual mais próximo da realidade, esse é o ponto de partida para minhas pesquisas pictóricas. No começo procurava fotografias históricas, depois as imagens neutras e atualmente me concentro sobre as imagens comuns divulgadas na internet. Atualmente sou inspirado pelas minhas próprias fotos para minhas criações.

Como surgiu a ideia de trabalhar com diferentes tipos de tecidos, como o feltro, por exemplo?

– A grande virada nas minhas criações aconteceu em relação aos temas e ao cromatismo, que tornou-se mais minimalista e mais purista, foi nesse momento que fiz a descoberta de um novo meio, que é o feltro. Antes de mim, artistas como Joseph Beuys e Robert Morris eram conhecidos por usarem esse material para as suas criações tridimensionais, mas não tenho conhecimento de artistas que usaram o feltro de uma maneira sistemática como um meio para a pintura.

Como surgiu essa paixão por este material?

– Após o retorno de algumas telas que estavam em exposição e chegaram ao atelier embaladas em feltro, me encontrei com uma grande quantidade desse material. Foi a partir desse momento que comecei a usá-lo mas, também, pelas suas qualidades cruas como sua estrutura, textura absorvente e seca, que me intrigaram imediatamente. Esse encontro casual com um novo material causou uma nova aventura pictórica. O procedimento de trabalho foi alterado radicalmente, porque a pintura feita nesse gênero de suporte desempenha um papel importante nas superfícies pintadas. É como se estas obras executadas no feltro provocassem novos gestuais expressivos, que ultrapassam o escopo do que pode ser chamado de “pintura” de uma forma convencional. Por outro lado, há um sentimento que o trabalho em si ainda está sendo criado diante de nossos olhos e, cabe ao espectador o papel de terminá-la mentalmente.

Você tem algum grande sonho para suas criações?

– Não tenho sonhos ou desejos específicos para as minhas criações, tenho apenas desejos para pessoas reais, as que são importantes para mim.

Além do fato de ser um artista, qual é sua relação com a arte contemporânea no dia-a-dia?

– Nós vivemos num mundo de imagens. Qualquer coisa pode se tornar uma fonte de inspiração para a criação. Acho que o papel de um artista é mudar, inventar e reinventar o mundo das imagens, se concentrando no que é essencial para ele mesmo.

O que o inspira no cotidiano?

– O sentido singular da existência, no momento presente, e seu movimento permanente.

Como você escolhe seus temas artísticos?

– Para se criar algo pode-se partir de coisas simples como uma cor, um sentimento, uma luz em uma foto ou uma situação real. Depois disso, há o movimento do corpo ou a atmosfera de um objeto no espaço, o caráter psicológico e visual. A escolha dos temas pode ser intelectual ou intuitiva. No meu caso, é a combinação de ambos.

Quais os seus próximos projetos?

– Tenho uma exposição individual que será apresentada numa galeria da Eslovênia, em dezembro deste ano, uma exposição coletiva em Paris, em março de 2015, que será sediada num Centro de Arte Contemporânea. Em abril de 2015 terei uma exposição individual em Belgrado num Centro de Arte, que era a antiga residência do rei Pierre I da Sérvia.

O que é arte para você? 

– Para mim, a palavra arte está diretamente relacionada com a palavra jogo. A arte começa e termina no próprio ato da criação. Por consequência seu “produto”, uma obra de arte, é uma realidade diferente, material e física, que não pertence mais ao artista.

Imagens Christian Nouzillet

www.bogdanpavlovic.com

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