Daniela Busarello

15 de abril de 2022

Ela já teve mil vidas e, como numa revelação, trocou sua prancheta de arquiteta por telas gigantes para seguir com a arte que ela está desenhando com seu coração. Graças ao seu amor pela natureza e pelo ser humano, a artista pincela delicadezas impregnadas de sentidos figurados.

Brasileira, italiana, francesa, internacional, Daniela Busarello foi bailarina na infância e adolescência, trabalhou como arquiteta, urbanista, arquiteta de interiores em sua fase adulta e está renascendo, literalmente, como artista.

Essa transformação surgiu na manhã do seu aniversário de 40 anos, quando decidiu seguir sua intuição e cursar a escola de Belas Artes, em Paris, para aprimorar seu talento. Em 2015 aconteceu a primeira exposição e, em 2017, veio o “segundo chamado divino”, como ela gosta de dizer, e o sonho da pintura à óleo em grande formato adquiriu forma dentro da realidade.

“Aprender a me exprimir artísticamente foi uma questão de sobrevivência”, afirma. “Ou isso ou desaparecia desta terra. Escolhi ficar!”

Como não poderia deixar de ser, seu trabalho é impregnado das outras vidas que ela viveu e a artista fala de corpos-paisagens, do espírito dos lugares, do tempo que passa, da importância de observarmos o cotidiano e sua imanência, “que é quase invisível porque está tão presente que não percebemos sua riqueza.”

A partir dessa constatação, a artista se debruça em pesquisas orgânicas e metafóricas, que exploram os ciclos da vida, o ecossistema, as interações humanas e a fragilidade desse universo.

Essa conexão forte com o ser humano, o meio-ambiente, é uma das preocupações da artista, que almeja com sua arte restaurar um certo equilíbrio para criar um universo em harmonia. “Acredito que somos todos um, é disso que me inspiro para criar paisagens e retratos abstratos. As minhas pinturas transmitem essa vibração de uma comunhão pacífica…”

Com estilo próprio, conceituado de abstrato lírico e uma visão cíclica do tempo, sua prática artística é espiritual, física e mental. Suas pinceladas transcendem e se transformam em algo que está por vir, como um mergulho no desconhecido suas telas provocam um encontro entre os diferentes níveis do inconsciente coletivo e pessoal.

Essas ondas inconscientes deve-se ao fato da artista se concentrar calmamente enquanto pinta, destilando sua intenção em cada gesto…  “e as pinceladas seguem esse ritmo, aprecio esse tempo lento da composição”, afirma Daniela.

“Quando vou começar a pintar, decido quais as técnicas e as dimensões que serão utilizadas para preparar o material. Quero contar uma história, onde pessoas, personagens, paisagens se entrelaçam nessa simbiose criativa constituída de pinceladas e, para que isso ocorra, é preciso esperar pacientemente enquanto a arte opera sua transformação…”

Atualmente trabalhando na série Mar Verde, em homenagem a Mata Atlântica, a mais devastada do Brasil, Daniela retoma o conceito de “invisível para os olhos” com o qual ela permeia suas obras, confirmando que estamos cegos por conta da quantidade de (des)informação não somente sobre o desflorestamento da Amazônia, mas sobre quem somos e nosso papel nesse planeta. Ainda segundo a artista, esquecemos de prestar atenção ao que está desaparecendo ao nosso redor, no nosso cotidiano.

A relação da natureza e do urbano permeia sua criação, como se a vida que ele teve como arquiteta ainda estivesse presente guiando o processo, interferindo de alguma maneira, na sua forma de fazer arte.

Para esse projeto Mar Verde, Daniela coletou 170 testemunhas das questões sociais, políticas, econômicas, medicinais e populares da Mata Atlântica.

Durante uma temporada de 4 meses no Brasil, em 2021, Daniela se dedicou à pesquisa de pigmentos feitos de plantas e aprendeu que eles são compostos por 90% de água: fertilidade, pureza, poder e graça.

“Para transformar água em pó, utilizo um método medieval, cujos ingredientes são também a passagem do tempo: a vida e a atmosfera, que é o ar que respiramos, umidade ou calor, o ar de um lugar onde vivemos. Silêncio, desaceleração, quase uma oração.”

O processo de metamorfose foi fotografado e faz parte de um projeto de vídeo e livro. “Essas plantas eu as colhi em uma cidade de 2 milhões de habitantes. Plantas quase “invisíveis” porque fazem parte da paisagem urbana mas desaparecem do nosso campo de visão e, por conseguinte, do nosso cotidiano,” filosofa a artista. Daniela está trabalhando na cenografia ideal, em forma maquetes, e pensando em desenhar um herbário com estes pigmentos e plantas em formato 30x40cm.

Da Mata Atlântica para os picos de neve de Chamonix, região dos Alpes Franceses, onde mais um avez Daniela se debruçou sobre os mistérios da natureza para desenvolver um projeto artístico. “Passei uma semana em fevereiro num Mar Branco de neve e, de lá, surgiram fotografias incríveis que pretendo usar como material na pintura e mostrar em conjunto com meu Herbário Visceral,” confessa ensusiasmada.

Para quem teve mil vidas, mil projetos a esperam, e Daniela não se cansa de potencializar suas idéias em todos os médiums. O seu trabalho em vidro soprado, intitulado “Respiração”, foi desenvolvido entre a França e a Itália. “Foi a partir desse projeto que a arte entrou definitivamente na minha vida, se apropriando das minhas mãos e me dando a possibilidade de me expressar de outro modo além da arquitetura.”

No início de 2021, o Mobilier National incluiu em seu acervo duas obras da artista, as peças um e dois da série Anima Mundi. Suas obras podem ser vistas em seu ateliê em Paris e na galeria parisiense Mouvements Modernes.

Atualmente ela tem dois livros em fase final de design gráfico, que trata do tapete de dimensões monumentais 4m x 6m, feito a mão em Aubusson, na França. A publicação aborda o processo criativo e as relacões humanas, um dos assuntos explorados pela artista em todos os seus projetos.

Quando questionada sobre como ela gera todo esse fluxo criativo, ela responde simplesmente, “através da arte, um instrumento de mudança interior, que transformou minha própria vida.”

Fiel ao sacerdócio da arte e com as oportunidades a seu favor, Daniela Busarello continua persistindo na sua missão de interferir na linguagem-estética para criar uma nova forma de expressão, que é sungular e pessoal, e isso, para a artista, são expressões de vida…

EDIÇÃO DE TEXTO – Marilane Borges

IMAGEM – Cortesia da artista Daniela Busarello com fotografias clicadas por © Franck Jouery © Gilad Sasporta © Piotr Rosinki © Todos os direitos reservados

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